Descubra a história Baleizão

O projeto “À Descoberta de Baleizão”, financiado no âmbito da Medida 10 LEADER, Operação 10.2.1.6 RENOVAÇÃO DE ALDEIAS, pretende promover o turismo e a história local na aldeia de Baleizão, no concelho de Beja. 

À Descoberta de Baleizão é da responsabilidade da Junta de Freguesia de Baleizão e visa criar condições para que a história desta aldeia, rica em vestígios arqueológicos e um importante palco de lutas sociais e direitos cívicos no século XX, possa ser partilhada e constituir um potencial turístico. Entre outras ações, o projeto previu a criação de painéis informativos sobre a história local de Baleizão em cinco locais da freguesia e a constituição desta plataforma de divulgação e arquivo das memórias históricas de Baleizão.

Descubra os nossos habitantes

Bem-vindo a Baleizão

Baleizão é uma freguesia rica em história com os pés assentes no tempo profundo. As evidências arqueológicas permitem-nos dizer que desde os primórdios da nossa espécie já por aqui se circulava. O Guadiana terá, desde tempos imemoriais, apelado a Homens e animais. Recuando pelo menos quatro mil anos, encontramos grandes povoados nas encostas do Guadiana como o Cerro Furado (1º milénio a.C.) e Castelos (ca. 2º milénio a.C.), alguns dos maiores da Península Ibéria neste período. De época romana seriam várias as vilas que explorariam as terras férteis da freguesia que estava por vir. Fonte dos Frades é talvez o melhor exemplo de uma grande exploração agrícola romana e apesar de não ter sido, infelizmente, totalmente documentada, seria certamente uma das maiores vilas romanas do sul da Lusitânia.

Avançamos no tempo e alguma névoa se instala entre esse tempo e o início do século XVI. É bastante provável que a dinâmica do território se tenha mantido em época islâmica, apenas travado pelas longas guerras da “Reconquista”, mas só a partir do início do século XVI lemos sobre a existência desta aldeia que conhecemos por Baleizão. A presença de vestígios de época romana numa área circundante do povo atual poderá sugerir uma antiguidade ainda mais relevante, mas faltam-nos dados para a aferir. Referem alguns autores que estas terras terão sido doadas pelo rei D. João I ao Condestável D. Nuno Álvares Pereira, o qual doou, em 1386, parte das terras divididas em herdades a sua irmã D. Violante Pereira, como dote de casamento com Martim Gonçalves de Lacerda, cuja família subsistiu em Beja ate fins do século XVIII. Seriam os chamados fidalgos ou morgados da Aldeia Velha de Baleizão mais tarde denominada aldeia de Baixo. É bastante provável, que no início do século XVI o povoamento de Baleizão esteja intimamente ligado à Comenda de Vera Cruz de Marmelar, mais a norte. Posteriormente, já em setecentos, o povoado ter-se-á expandido pelo arrabalde poente, seguindo respeitando a tradição, a diligencias de um Capitão de Ordenanças de nome desconhecido, que formou a aldeia Nova ou de Cima, e onde se situam a igreja paroquial e o cemitério da freguesia.
No ano de 1534 teria Baleizão, segundo os registos paroquiais, cento e trinta e quatro moradores e em 1758 cento e sessenta e cinco.

O que visitar em Passeio

A aldeia conta hoje com 884 (censos 2021) habitantes e para além da história de Catarina e das lutas sociais que o corajoso povo baleizoeiro sempre empreendeu, há muito para conhecer. No ponto mais alto da aldeia, com vista para Beja, ergue-se a Igreja de Nossa Senhora da Graça, mandada construir no século XVII para substituir o templo medieval anterior, provavelmente datado do século XIV é um dos templos religiosos mais magnânimos do Concelho, quer do ponto de vista do traçado exterior como da ornamentação interior.

Na aldeia velha, encontramos o Largo de Catarina Eufémia, antigo Largo da Fonte onde subsistem ainda vestígios como a antiga Fonte Pública do século XIX, decorada com arcadas
e cúpula, e a Casa da Água que abastecia a população. A pouca distância do largo situa-se também a arruinada Igreja do Fidalgo, provavelmente mandada construir no século XVIII
pela aristocracia local. Outras construções de interesse são o Monte do Olival, onde subsistem ruínas de uma capela e solar setecentista que pertenceu à família dos
almirantes Dórias, e a Quinta de São Pedro, composta por um palacete do século XVIII e capela privativa.
Na zona rural da freguesia encontram-se igualmente monumentos históricos como a antiga Ermida de São Luís em São Pedro de Pomares, do século XIV,
e vários vestígios arqueológicos. Junto ao rio Guadiana erguem-se ainda antigas azenhas e alguns fortins do século XVII que faziam parte do sistema defensivo da região.

De Baleizão podíamos referir muita gente ilustre que desta aldeia saiu para o mundo fazer história. Francisco Miguel Duarte, resistente anti-fascista e
conhecido poeta, Joseia Matos Mira, Professora Universitária e escritora prolífica, que aborda na sua obra literária vários acontecimentos de Baleizão,
são dois nomes que julgamos importante referir.

Baleizão é ainda terra de ofícios, por isso convidamo-lo a conhecer também esse importante património. Visite, na aldeia de cima, a oficina do Mestre Manuel Pica,
cadeireiro e artesão de buinho, ou vá até à padaria Belo Panito provar as especialidades doceiras da região. E claro, pelo meio, não deixe de planear uma refeição
num dos nossos cafés e restaurantes.

Na retaguarda da Grande Guerra, a fome nos campos do Alentejo

No dia 19 de Junho de 1917 morreu Palmira da Graça, com 36 anos, na estação de Baleizão. Foram feridos, juntamente com ela, Joaquim Charôco, de 38 anos, Gertrudes Balbina, de 20 anos, e Maria da Graça, viúva de idade desconhecida. Gente de Baleizão, foram atingidos por disparos de uma força da Guarda Republicana enviada de Beja após receberem informações sobre um grande ajuntamento de moradores na estação ferroviária que servia a localidade. O objetivo da multidão era impedir a saída de sacas de farinha ali depositadas com rumo a Palmela, pois o pão escasseava na aldeia e a fome fazia-se sentir.

Estava-se então em plena I Guerra Mundial e, para além da brutalidade de um conflito que levou à morte de milhares de jovens soldados portugueses, a escassez e carestia de bens alimentares era uma realidade em todo o país, aumentando a instabilidade política e social do jovem regime republicano saído de 05 de Outubro de 1910. Ainda que a implantação da República trouxesse consigo a expectativa de melhoraria das condições de vida, o regime debateu-se quase de imediato com sérias dificuldades que não conseguiu superar. A agitação política e as lutas sociais desde cedo se manifestaram, recorrendo frequentemente os governos republicanos ao uso da força para conterem acções de contestação e reivindicação, prolongando-se até ao golpe de 28 de Maio de 1926, que haveria de conduzir à ditadura fascista do Estado Novo.

A escassez e carestia de bens alimentares durante a I Guerra Mundial ficaram conhecidas, na imprensa da altura, por ‘crise de subsistências’, e foi a origem de um dos pontos altos de contestação social e política durante o regime republicano. Estava em causa o acesso a bens básicos para a alimentação das comunidades, pondo em risco a própria sobrevivência das mesmas. Os protestos e as lutas alastraram a todo o país. Na região de Beja desde cedo que se começaram a levantar preocupações a este nível, logo no início de 1915. A nível local, para além da escassez generalizada de bens alimentares, questionava-se o envio de trigo para outras zonas do país, nomeadamente Lisboa, provocando problemas e fome numa região produtora deste cereal. Acusava-se os produtores e distribuidores de açambarcamento e especulação, procurando retirar proveito das extremas dificuldades da generalidade da população, e exigia-se a intervenção das autoridades.

Em 1916 a situação já era muito difícil, mas em 1917 ficou ainda pior, com os trabalhadores a viverem situações desesperadas. A 10 e 11 de Junho estalaram conflitos na cidade de Beja, com uma parte dos habitantes a mobilizarem-se para impedirem a saída de trigo da cidade, dando origem a uma intervenção de uma força do Regimento de Infantaria nº17. Na sequência desta intervenção, a desordem alastrou pela cidade, com assaltos a casas particulares e comerciais, mas sem nenhuma vítima mortal.

O mesmo não aconteceu a 19 de Junho, na estação de Baleizão-Quintos. Numa primeira investida, os seus habitantes conseguiram recolher para Baleizão, depositadas numa casa da Junta da Paróquia, noventa e oito sacas de farinha, com a intenção que a mesma fosse posteriormente vendida a doze centavos cada quilo, preço praticado em Beja pela comissão de abastecimento, após o que foram dispersos pelas forças da Guarda Republicana. Voltaram mais tarde, pela noite, em maior número, para levarem as restantes. Primeiro, a guarda atirou para o ar e avisou para não avançarem. Mas havia fome e, corajosamente, avançaram. A guarda efectuou nova descarga, desta vez com ‘pontarias baixas’. Palmira da Graça tombou.

Empedramento-da-estrada-da-estação-de-Quintos-(©-Arquivo-da-Câmara-Municipal-de-Beja)

Empedramento da estrada da estação de Quintos
© Arquivo da Câmara Municipal de Beja

Rancho-de-mulheres-trabalhadoras

Rancho de mulheres trabalhadoras
© Arquivo da Câmara Municipal de Beja

Transporte-de-palha.-Anos-50

Transporte de palha. Anos 50.
Foto de Artur Pastor
© Arquivo Municipal de Lisboa | PT/AMLSB/ART/003445

A luta dos trabalhadores rurais na planície do latifúndio

No dia 19 de Maio de 1954 morreu Catarina Eufémia Baleizão do Carmo, com 26 anos, mãe de três crianças, na Herdade do Olival. Era natural de Baleizão, apesar de na altura viver em Quintos, não se sabendo bem porque naquele dia estaria em Baleizão. Foi atingida por um disparo efectuado por uma força da Guarda Nacional Republicana, chamada à Herdade para conter um protesto de um grande número de trabalhadores agrícolas de Baleizão, que reivindicavam melhores salários e que por isso se haviam recusado a trabalhar, entrando em greve. O rendeiro da Herdade, face a esta situação, recorreu a um grupo de trabalhadores do Penedo Gordo, outra aldeia do concelho de Beja, para efectuar a ceifa (talvez de fava, não de trigo), e foi quando estes estavam já a trabalhar que os operários agrícolas de Baleizão se juntaram, para os convencerem a serem solidários com a sua luta, abandonando por sua vez o trabalho.

Baleizão pouco difere do vasto contexto alentejano onde a existência do latifúndio foi determinante para as condições de vida das suas populações, até que mudanças diversas ocorridas após o 25 de Abril de 1974 alteraram o panorama. O latifúndio era a forma dominante de exploração da terra, com grandes propriedades agrícolas pertencentes a uma elite de proprietários. Em 1959 as propriedades que em Baleizão tinham mais de cem hectares, cerca de 6,50% do número total, e ocupavam cerca de 74% da terra disponível na freguesia. Era, por isso, uma aldeia cercada pelo latifúndio, como acontecia com tantas outras no Alentejo. Com a posse da terra concentrada nas mãos de uma elite de grandes proprietários, a maioria da população era composta por trabalhadores agrícolas assalariados. Na década de sessenta do século XX mais de 80% da população ativa do Alentejo tinha essa função. Era frequente o desemprego, trabalhavam temporariamente na maioria das vezes, recebiam salários muito baixos e, até 1962, trabalhavam longas horas. Estas condições difíceis, de pobreza, levaram os trabalhadores a organizarem-se para tentarem melhorar sua situação, aproveitando momentos de maior necessidade de trabalho pelos proprietários (ceifas, mondas, entre outras) para reivindicarem, por exemplo, aumentos de salário ou redução das horas de trabalho.

Era isto que estava a acontecer naquele dia 19 de Maio, em Baleizão. Recorrer a trabalhadores doutras zonas para contornar as lutas das populações locais era uma prática comum entre os proprietários no Alentejo. Os trabalhadores de Baleizão não queriam que o seu esforço fosse gorado, pois se não fizessem aquela ceifa a fome iria fazer-se sentir nalgumas famílias. Juntaram-se em grande número, entre quinhentos e dois mil, não se sabe ao certo. Uma comissão avançou, maioritariamente constituída por mulheres, para falar com os trabalhadores provenientes do Penedo Gordo. Catarina estava neste grupo, com o filho mais novo ao colo, não prevendo o que iria passar-se de seguida. O tenente Carrajola, que liderava o reforço de guardas proveniente de Beja, interpelou o grupo perguntando o que queriam, Catarina respondeu – Trabalho e pão. Ele colocou a arma debaixo do braço dela e disparou, dizendo depois que as matava a todas. Fugiram, mas Catarina ficou, estendida, junto à entrada da aldeia. Iria tornar-se num símbolo da luta, da determinação e da coragem dos trabalhadores agrícolas do Alentejo. O seu nome ficou para sempre gravado na memória de Baleizão e logo a seguir ao 25 de Abril, em pleno processo da Reforma Agrária, foi criada na freguesia uma UCP que chegou a empregar cerca de quinhentas pessoas; o seu nome era ‘Terra de Catarina’.

Homem-semeando.-Anos-50

Homem semeando. Anos 50.
Foto de Artur Pastor na área de Beja.
© Arquivo Municipal de Lisboa | PT/AMLSB/ART/003391

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Poço Público de Baleizão (1948)
© Arquivo da Câmara Municipal de Beja | 3B311-MA

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Única foto conhecida de Catarina Eufémia

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Objetivos do projecto

 
– Promover a descoberta de Baleizão através da criação de sinalética de apoio à interpretação da história local, em particular da histórica cívica e social da Freguesia, dos seus importantes vestígios arqueológicos e patrimónios imateriais, em particular oral e artesanal;

– Fomentar a participação da comunidade local na construção da sua história tornando-os atores fundamentais na dinamização dos fluxos turísticos;

– Criar novos conteúdos que permitam disseminar a importância de Baleizão na história dos movimentos sociais e direitos cívicos ao longo do século XX;

– Através deste conjunto de operações, criar condições para a descoberta da história local por parte da comunidade migrante residente em Baleizão;

De forma a converter o potencial histórico e simbólico de Baleizão em benefícios concretos para a comunidade, a JFB propôs criar condições para que a história da aldeia pudesse ser transformada em potencial turístico e de agregação comunitária que potencie a uma desejada renovação no posicionamento da aldeia. Esta transformação no âmbito do “À Descoberta de Baleizão” materializou-se numa intervenção a partir de duas intervenções dinâmicas, sempre justapostas e com uma dimensão tangível/material e intangível/imaterial:

 

  1. Baleizão: histórias de muitos séculos, de vários povos e comunidades 

 

1.1. Histórias das gentes e dos movimentos cívicos e sociais 

Nesta intervenção considerou-se a divulgação de parte da história do povo de Baleizão, na sua ampla geografia física e social, promovendo o conhecimento mais aproximado dos seus extraordinários vestígios arqueológicos, da história do mundo rural ao longo do século XX, e das lutas dos trabalhadores para a melhoria das suas condições de vida e o papel que Baleizão desempenhou nas várias lutas pela liberdade e na construção de um país mais justo e mais cívico. Forão elaborados um conjunto de textos e reunido material fotográfico de forma a construir sinalização turística de interpretação (i.e. painéis fixos / mupis estáticos) em cinco lugares da Freguesia que testemunham e permitem contar esta história (veja mais aqui – adicionar link). Estes painéis (sinalética) estão iluminados com recurso a pequenos painéis solares que dotarão este equipamento de características mais ecológicas e, naturalmente, auto-sustentável. 

A este conjunto de painéis foi associado um QRCODE que direcionará os visitantes para esta plataforma online onde poderão ser escutados vários testemunhos recolhidos juntos da população sobre os acontecimentos e os personagens que percorrem estas narrativas.

 

1.2 Baleizão: histórias do passado longínquo e de tesouros

Baleizão é a freguesia de Beja com a maior densidade de vestígios arqueológicos de diferentes temporalidades. Não só retrato é diversificado, como a importância de alguns destes achados é inegável. O “Tesouro de Baleizão”, constituído por 31 peças de ouro, bronze e quartzo, possivelmente com mais de três mil anos, é o mais célebre exemplo. A própria história da sua descoberta está umbilicalmente ligada à história e percurso de Baleizão nas primeiras décadas do século XXI. O Tesouro, não obstante várias promessas, nunca regressou à aldeia. A sua memória, porém, perdura nas histórias e lamentos dos habitantes. Este projeto procurará responder a algumas dessas ânsias e lamentos oferecendo à terra e aos visitantes a oportunidade de visitarem um pequeno núcleo museológico onde será contada a história do Tesouro, recorrendo a uma museografia criada de raiz (cartazes, legendas, etc.), e à exposição de pequenas peças cerâmicas cedidas através de empréstimos pela Câmara Municipal de Beja e Direção Regional de Cultura do Alentejo. O lugar desta mostra será a antiga Casa dos Cantoneiros, situada no Largo das Bicas, junto ao Largo de Catarina Eufémia, propriedade da JFB, e que possuí já equipamento expositivo para o efeito. As peças cerâmicas terão como objetivo contar a importância arqueológica do território de Baleizão e de sítios tão importantes como o Cerro Furado e dos Castelos na margem do Guadiana. O rio será aliás um tema importantíssimo a tratar nesta mostra, na medida em que é o Guadiana que enquadra Baleizão neste território ao longo de vários milénios. É do Guadiana que se extraem os principais recursos, durante séculos de forma sustentável, e é a partir dele que se desenham rotas de comércio e de transumância. Mais recentemente, o caminho de ferro, como elemento de ligação entre as duas margens, ganha contornos importantíssimos na história “baleizoeira” do século XX. Também esse tema, na abordagem ao apeadeiro ainda existente, será trabalhado como conteúdo de memória. Complementarmente, este espaço de memória seria ainda dinamizado com a exposição de algumas peças artísticas de artesãos locais como o Mestre Manuel Pica e o Sr. Terra Nova, e de alguns produtos locais disponíveis para venda ao público. 

Salienta-se ainda a importância que esta localização tem na malha urbana do povoado, servindo como ponto difusor e convergente de quem habita e visita Baleizão. Com a instalação deste espaço-museu neste local, estaremos a promover o diálogo entre moradores e visitantes, fomentando o diálogo interno sobre o presente e passado de Baleizão.   

 

  1. Baleizão Imaterial – comunidade das artes, dos ofícios e dos cantes

 

2.1 Baleizão e o Cante como património da aldeia e do mundo

O cariz simbólico de Baleizão foi desde sempre interpretado e divulgado pelas suas gentes através do Cante e da poesia popular. Atualmente são dois os grupos corais que representam a freguesia, o Grupo Coral de Baleizão, e o Grupo Coral Terra de Catarina. Já com vários anos em atividade, estas duas colectividades não são apenas um testemunho do passado. Pela agregação de cantadores e cantadeiras mais jovens, os dois conjuntos são um testemunho do que se pede ao Cante e aos seus atores, isto é, garantir através da intergeracionalidade garantir a continuidade deste tesouro patrimonial. Neste âmbito o projeto contempla a gravação de um dois videoclips a disponibilizar em breve nesta plataforma. O painel instalado no Parque Álvaro Cunhal, na proximidade da Casa do Povo, permite dar a conhecer a história do Cante e destes corais de Baleizão, oferecendo acesso à escuta destas gravações através de QRCODE de acesso.

 

2.2. Baleizão, eterna terra de artes e ofícios

Baleizão é ainda terra de ofícios. Reforça-se a expressão “ainda”, pois na verdade, ao contrário de outros povoados da região, a aldeia de cima é casa da oficina do Mestre Manuel Pica, cadeeireiro e artesão do buinho. O concelho de Beja assiste à perda gradual das suas artes e ofícios ancestrais, pela idade avançada da maioria dos seus mestres-artesãos e extinção de algumas das atividades que sempre caracterizam a cultura da região. Com esse apagamento obliteram-se um conjunto de objetos, mais ou menos funcionais, com ou sem carácter decorativo, que desde tempos imemoriais caracterizam a cultura material alentejana, sempre polifacetada mas muito ligada ao trabalho da terra e à originalidade das suas gentes. Na oficina de Manuel Pica mantém-se vivo este fulgor artesanal. Na intervenção prevista será colocado um painel expositivo na proximidade do seu espaço, assim como integraremos na oferta de visitação a possibilidade de o visitante participar de uma oficina de aprendizagem da arte do buinho. Ao tornar este espaço como ponto fulcral no circuito de visita a Baleizão, estaremos a contribuir para a manutenção deste ofício secular, alinhando o projeto com a Estratégia Nacional do Saber Fazer Português 2019-2024 (DR n.º 207/2020, Série I de 2020-10-23, p. 6-1). Neste percurso imaterial pela história de Baleizão procurar-se-á ainda criar um conteúdo de divulgação dos famosos bolos de massa do pão, conhecidos como “Baleizoeiros”, fabricados na padaria Belo Panito, e que terão destaque na plataforma web suportada por registos destes doces e o seu fabrico. Este é aliás um aspeto de grande preocupação no projeto: ancorar o benefício económico à estratégia de promoção turística, utilizando este exemplo como mote para incluirmos posteriormente outros estabelecimentos comerciais, ou doces e produtos regionais de fabrico próprio na aldeia, nesta lógica de divulgação.